⏱️ JOB HOPPING TÁ EM ALTA

Por que os brasileiros — principalmente os jovens — estão trocando mais de emprego

Pesquisas mostram alta rotatividade entre trabalhadores mais jovens; especialistas explicam como propósito, flexibilidade e falta de perspectiva de carreira passaram a pesar mais do que estabilidade
(Imagem gerada por IA)

Por Trainee

Formada há seis anos em arquitetura, Clara Martinez já passou por quatro empresas. Na primeira troca, o motivo foi puramente financeiro. Depois, ela passou a priorizar desafio e desenvolvimento profissional — a ponto de recusar uma contraproposta financeiramente superior à nova oferta que havia recebido.

Na mudança mais recente, Clara deixou um emprego estável, mas sem perspectiva de crescimento, para entrar numa empresa maior: manteve o mesmo salário, abriu mão do trabalho remoto e apostou num plano de carreira de longo prazo. Como ela resume: “Eu não fugi de um ambiente ruim. Eu fugi da estagnação.”

A trajetória de Clara reflete um movimento cada vez mais comum no mercado brasileiro: o job hopping, prática de trocar de emprego com frequência em busca não só de salário maior, mas de desenvolvimento profissional, flexibilidade e identificação com a cultura da empresa.

A rotatividade em números

Quanto maior a rotatividade quanto mais jovem o trabalhador.

44%

buscam ativamente outra vaga

39%

consideram deixar o emprego atual

38,2%

de 18-24 anos saem antes de 1 ano

52%

de 14-17 anos saem antes de 1 ano

Os dados são da consultoria Michael Page e de um levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego. Entre 25 e 29 anos, 25,3% dos trabalhadores deixam o emprego antes de completar um ano — percentual que sobe para 38,2% na faixa de 18 a 24 anos e ultrapassa a metade entre adolescentes de 14 a 17 anos. Segundo o levantamento, baixos salários, jornadas longas e poucas oportunidades de desenvolvimento explicam boa parte desse comportamento: diante da sensação de que não haverá investimento em sua carreira, muitos jovens preferem pedir demissão a esperar por uma melhora que talvez nunca chegue.

Nem toda troca é escolha do trabalhador, no entanto. Segundo o consultor Lucas Oggiam, diretor executivo da Michael Page Brasil, o aumento da rotatividade tem causas variadas: parte decorre de decisões voluntárias dos profissionais, parte reflete demissões ligadas ao cenário econômico, como cortes de custos e reestruturações. Ele também observa que funções operacionais e de entrada tradicionalmente têm maior rotatividade, enquanto executivos de alta liderança (os chamados C-levels) tendem a construir trajetórias mais longas na mesma empresa.

Para a pesquisadora Maira Blasi, especializada em futuro do trabalho, a estabilidade no emprego simplesmente perdeu espaço para outras prioridades, como uma carreira mais diversificada e alinhada a um propósito profissional. A expansão do ensino superior e o acesso mais amplo à internet ampliaram o contato dos brasileiros com diferentes referências de carreira ao redor do mundo — o que mudou a régua do que se espera de um emprego. Ao mesmo tempo, segundo ela, a própria oferta de estabilidade das empresas mudou: demissões em massa, contratação como pessoa jurídica e projetos mais curtos reduziram o interesse em permanecer muitos anos no mesmo lugar.

A busca por ambientes mais inclusivos também entra na conta. A maior visibilidade de temas como neurodiversidade e diversidade de gênero levou parte dos profissionais a questionar o ambiente de trabalho tradicional, tornando mais atrativas as empresas que oferecem flexibilidade, políticas de diversidade e melhores condições para conciliar vida pessoal e trabalho. Segundo Blasi, esse movimento se intensificou depois da pandemia, quando a vida fora do trabalho passou a pesar mais na decisão de ficar ou sair de uma empresa — inclusive a insatisfação com lideranças, já que um ambiente tóxico no trabalho tende a contaminar também a vida pessoal.

Aos 36 anos, Ana Zampolo, especialista em educação corporativa, é outro exemplo do fenômeno: nos últimos seis anos, passou por cinco empresas, chegou a abrir e fechar o próprio negócio e migrou da logística — sua área de formação — para a área organizacional. Para ela, as trocas fizeram parte de um processo de autodescoberta profissional, e nem sempre significaram aumento de salário: em alguns momentos, aceitou ganhar menos para se aproximar da área em que realmente queria construir carreira.

O que pesa mais na decisão de trocar de emprego

Fatores citados por especialistas e trabalhadores entrevistados.

Falta de desenvolvimento profissional e plano de carreira
Ausência de identificação com a cultura da empresa
Falta de flexibilidade e dificuldade de conciliar vida pessoal
Ausência de políticas de diversidade e inclusão
Insatisfação com lideranças e ambiente tóxico

Um receio comum entre quem troca de emprego com frequência é ser mal visto por recrutadores. Mas, segundo o relato tanto de Clara quanto de Ana, isso não se confirmou na prática — pelo contrário, a rotatividade recente chegou a ser recebida como ponto positivo em entrevistas, associada a proatividade e busca constante por evolução. Ainda assim, especialistas alertam que o contexto de cada mudança continua sendo determinante: no início de carreira, é natural buscar cargos diferentes numa velocidade maior; já executivos tendem a construir — e a precisar construir — trajetórias mais longas para ganhar credibilidade.

Não existe um tempo ideal e universal de permanência num emprego, segundo os especialistas ouvidos. A recomendação geral gira em torno de pelo menos um ano em cada organização — mas o mais importante não é o calendário em si, e sim ficar tempo suficiente para entregar resultados concretos e conseguir explicar, numa próxima entrevista, o impacto real que o próprio trabalho gerou. Para empresas, o recado é o oposto: num mercado onde ficar é cada vez mais uma escolha e não uma obrigação, reter talento passa a depender de oferecer o que hoje pesa mais na balança — propósito, desenvolvimento real de carreira e um ambiente que valha a pena não trocar.