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Para fugir do desemprego, engenheiros e advogados viram programadores
Segundo dados da Driven, escola de programação, 80% dos alunos que procuram seus cursos já são formados e atuam em áreas que não tem a ver com tecnologia
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(Thinkstock/oatawa)

Em 2021, depois de quase um ano procurando emprego e se sustentando com bicos, o carioca Luiz Fernando Aires, 31, decidiu abandonar a carreira de engenheiro químico e virar programador.

“Eu já tinha experiência com algumas linguagens mais básicas de programação. Mas, mesmo assim, tomar essa decisão foi muito difícil. Ser engenheiro era o meu sonho de infância”, diz.

Depois de pesquisar um pouco sobre a área, resolveu participar do processo seletivo da Driven, escola de profissões digitais criada pelo empreendedor Paulo Monteiro. Antes mesmo de terminar o curso, com duração de seis meses, Aires havia recebido três propostas de trabalho.

Hoje, o carioca é desenvolvedor em uma startup de energia solar, ganhando o mesmo salário que recebia como analista no seu último emprego. “Até a minha namorada, que também é engenheira química, largou o emprego de supervisora em uma grande companhia e resolveu virar programadora também”, conta.

A história de Aires é o exemplo de um movimento que tem se tornado cada vez mais frequente: a migração de profissionais de carreiras tradicionais e que já estão no mercado de trabalho para a área de tecnologia.

Segundo dados da Driven, 80% dos mais de 9.800 inscritos nas suas duas últimas turmas são de áreas que não têm nada a ver com tecnologia. Entre as principais formações, cerca de 20% dos interessados, estão os engenheiros, incluindo aqueles de áreas bem distantes da computação, como engenharia civil, mecânica e química.

Porém, advogados, administradores de empresas e cientistas contábeis também estão entre os perfis dos profissionais que procuram os cursos da Driven. “Tradicionalmente já existiam mais engenheiros do que vagas disponíveis e muitos não atuavam na área de formação. Isso ficou pior durante a crise da covid-19”, afirma Monteiro

“O diploma também tem perdido muito peso porque as faculdades estão ficando obsoletas e não conseguem acompanhar as necessidades das empresas”, completa.

Legião de subutilizados

Os dados comprovam esse cenário. Em 2020, Aires engrossava uma fila de 3,5 milhões de brasileiros com diploma que estavam fora do mercado de trabalho. De um ano para o outro, inclusive, o número de trabalhadores subutilizados, ou seja, desempregados e com ensino superior, disparou 43%.

Antes de virar programador, Aires, que é formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acumulou passagens por empresas tradicionais do setor químico e petroquímico como White Martins e ChampionX.

Durante a faculdade, o carioca também se dedicou à pesquisa. “Fiz iniciação científica, um intercâmbio para os Estados Unidos, tudo o que me diziam que iria garantir uma carreira estável”, diz.

Mas nada disso havia sido suficiente e, mesmo após um ano de formado, Aires não conseguia ingressar em sua área de formação. “Não era chamado sequer para entrevistas, o máximo que consegui foi um emprego temporário”.

Flexibilidade

Além do mercado aquecido e das perspectivas de crescimento, muitos desses profissionais também são atraídos pela área de tecnologia por conta da flexibilidade no jeito de trabalhar.

“Na empresa que eu estou hoje tenho flexibilidade de horário, além de estar 100% em home office. Onde eu estava anteriormente como temporário, embora seja um trabalho que é possível ser feito de forma remota, todos os funcionários já voltaram para o escritório”, diz Aires.

Com colegas trabalhando para empresas fora do país, o profissional também sonha em trilhar uma carreira internacional. “Eu estou muito feliz. Em 2020 achava que tudo estava dando errado na minha vida, mas hoje estou realizado, tenho perspectivas de crescimento e até de morar fora, algo que seria bem mais complicado na engenharia”, completa.

Monteiro, da Driven, acredita que embora as escolas que ensinam a programar tenham se multiplicado nos últimos anos, ainda está longe o momento em que a escassez de profissionais de tecnologia deixará de ser um problema para o mercado.

“A demanda só está começando, na verdade. Fora isso, ainda vai faltar mão de obra qualificada em tecnologia, ou seja, aqueles profissionais que sabem resolver problemas complexos e não apenas escrever uma linha de código”.

Para quem também está pensando em migrar de carreira, Aires é categórico. “Não é fácil, mas é possível. É preciso de determinação e muito foco”, finaliza.

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