🫨 NÃO TÁ FARMANDO AURA

O CLT virou proposta. E o jovem está dizendo não

A nova geração não rejeita carteira assinada. Rejeita proposta sem futuro, sem desenvolvimento e sem sentido
(Imagem gerada por IA)

Por Trainee

A carteira assinada deixou de ser vista como destino obrigatório por parte da nova geração e passou a ser avaliada como uma proposta. E, como toda proposta, pode ser aceita ou recusada. Para muitos jovens, o vínculo formal ainda tem valor, mas já não basta aparecer como promessa genérica de estabilidade, especialmente quando vem acompanhado de salário baixo, rotina rígida, pouca escuta e quase nenhuma perspectiva concreta de crescimento.

Esse comportamento não significa rejeição ao trabalho formal. O que está em jogo é uma mudança na régua de comparação. Um jovem que recebe uma proposta CLT de entrada hoje não olha apenas para o contracheque. Ele compara salário, horário, gestor, ambiente, possibilidade de aprender, chance real de evoluir e alternativas fora do emprego tradicional, como aplicativos, vendas online, prestação de serviços, produção de conteúdo ou pequenos negócios digitais.

Os dados ajudam a explicar esse cenário. Segundo levantamento do Banco Central, entre 2015 e 2025, enquanto a população ocupada do país cresceu cerca de 10%, o número de trabalhadores por aplicativo subiu 170%, passando de 770 mil para 2,1 milhões de pessoas. Já o IBGE, em um recorte mais amplo, contabiliza 1,7 milhão de pessoas trabalhando por plataformas, avanço de 25% em apenas dois anos.

Esses números mostram que o trabalho por plataforma deixou de ser um fenômeno periférico e passou a funcionar como rota real de entrada para muita gente. O próprio Banco Central aponta que, sem as plataformas, boa parte de quem hoje trabalha por aplicativo provavelmente teria buscado emprego sem sucesso e estaria desempregada. Ou seja, muitos desses jovens não saíram do emprego formal: eles foram absorvidos por alternativas que o mercado formal não conseguiu oferecer, formar ou reter.

É nesse contexto que a carteira assinada precisa disputar valor. A nova geração cresceu vendo que existe vida econômica fora do contracheque tradicional. Viu familiares trabalharem anos com registro e pouca evolução, ao mesmo tempo em que acompanhou conhecidos ganhando dinheiro com entregas, vendas em redes sociais, edição de vídeos, lojas online ou serviços autônomos. Isso não torna a informalidade ideal, mas tornou a comparação inevitável.

O ponto central é que o emprego formal de entrada nem sempre aparece como o melhor negócio. Um diagnóstico do Ministério do Trabalho sobre a inserção produtiva dos jovens aponta que 84% dos jovens ocupados estão em funções generalistas, sem exigência de qualificação, e que a maioria recebe até um salário e meio. As duas maiores ocupações de jovens no país são balconista e escriturário, somando mais de 2 milhões de pessoas.

Quando o CLT oferecido é repetitivo, mal remunerado e sem trilha clara de desenvolvimento, a pergunta deixa de ser provocação e passa a ser prática: por que aceitar? Para o jovem, a formalidade só se torna atrativa quando entrega algo que a informalidade não consegue oferecer com consistência, como aprendizado, liderança preparada, ambiente saudável, plano de crescimento, segurança previdenciária e perspectiva de futuro.

Isso não significa romantizar a informalidade. Pelo contrário. O trabalho por aplicativo e outras formas autônomas carregam riscos importantes. Dados do IBGE mostram que 71% dos trabalhadores de plataforma estão na informalidade, contra 44% do restante da população ocupada. Apenas 35,9% contribuem para a Previdência, e, entre entregadores de moto, a informalidade chega a 84%.

Na prática, isso significa trabalhar sem 13º salário, férias remuneradas, aposentadoria garantida, rede de proteção e, muitas vezes, com jornadas mais longas e renda por hora menor. A promessa de autonomia pode esconder uma vulnerabilidade que só aparece com mais força no longo prazo. Ainda assim, quando o emprego formal também parece oferecer pouco futuro, muitos jovens acabam escolhendo a alternativa que dá mais sensação imediata de liberdade.

Esse é o ponto que empresas precisam compreender. O jovem não ficou preguiçoso, ficou mais crítico. Ele não está necessariamente fugindo da CLT, mas cobrando que a CLT justifique sua existência. Uma pesquisa do CIEE em parceria com o Instituto Locomotiva, realizada com quase 9 mil jovens, mostrou que 54% colocam a oportunidade de crescimento à frente do salário na hora de escolher uma empresa.

O mesmo levantamento mostra que 98% dos jovens sonham em trabalhar em uma empresa que invista em seu desenvolvimento, enquanto 7 em cada 10 afirmam que não trabalhariam em um lugar cujos valores não reconhecem. O recado é direto: essa geração aceita abrir mão de parte da flexibilidade, mas espera receber em troca trajetória, aprendizado, coerência e um ambiente que faça sentido.

A ironia é que muitas empresas que reclamam da falta de interesse dos jovens pelo emprego formal são as mesmas que oferecem a versão menos atrativa da CLT: vaga sem plano de carreira, gestor despreparado, jornada pesada, pouca escuta, cobrança alta e salário que mal cobre o básico. Nesse formato, a carteira assinada não compete com um sonho de liberdade, mas com uma conta simples feita no celular.

Para quem contrata, o desafio é desconfortável, mas necessário. O jovem brasileiro não está desvalorizando o trabalho formal. Ele está exigindo que o trabalho formal seja melhor do que a alternativa. Se a informalidade oferece liberdade, o CLT precisa oferecer o que a liberdade sozinha não entrega: futuro, proteção, desenvolvimento e motivos reais para permanecer.

A empresa que entender essa mudança primeiro terá vantagem na atração e retenção de jovens talentos. Não será no discurso nostálgico de que “no meu tempo era diferente” que o mercado vai convencer essa geração. Será com liderança melhor, trilhas de crescimento, ambiente saudável, valores reconhecíveis e uma proposta de trabalho que realmente valha a pena aceitar.