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Na Netflix, panda fofa grita sua angústia com o trabalho. Se identificou?


Microfone na mão e o som de Death Metal no fundo. A fofa panda vermelha Retsuko se transforma em sua fúria e grita suas angústias: sobre a colega de trabalho fofoqueira, a menina puxa-saco, a gerente que passa trabalho no final do expediente e o chefe machista e abusivo.

Depois do pequeno surto no banheiro do escritório, ela está pronta para voltar ao trabalho e se esforçar para ser uma funcionária exemplar.

Da mesma criadora da Hello Kitty, a personagem da Sanrio só se assemelha à gatinha na fofura, pois chegou cheia de personalidade – e uma raiva explosiva – na Netflix.

E já chegou popular, com a série sendo renovada para a segunda temporada em 2019. Afinal, quem nunca passou raiva no trabalho?

Se você se identificou, Aggretsuko (uma mistura do nome da personagem e a palavra do inglês “Aggressive”) pode ser sua nova série para maratonar – e também para servir de aviso para sua vida profissional.

Sentir raiva pode ser natural, mas o especialista em desenvolvimento humano e neurocoaching Eduardo Shinyashiki alerta para quando o descontrole emocional revela problemas mais profundos.

Como a personagem, muitas pessoas são levadas ao seu limite por tentar aguentar ao máximo a carga de trabalho e esforço mental impostas a elas no cotidiano. “O momento de fúria mostra quando o copo transborda. Você pode achar que tem o controle sobre suas emoções quando na verdade elas estão te controlando”, diz ele.

Na animação, a panda vermelha com um gosto para o karaokê é uma jovem de 26 anos, solteira e que trabalha em um escritório na área de contabilidade. Segundo o porta-voz da Sanrio, Kazuo Tohmatsu, ela foi criada em 2015 pela designer anônima conhecida como YETI com o conceito de “funcionária de escritório” após uma observação cautelosa dos trabalhadores no Japão.

“A personagem reflete o estresse e a frustração que a designer observou nos funcionários. Ela sentiu que eles estavam ‘gritando em seus corações’, o que ela caracterizou através do passatempo favorito de cantar músicas ‘trash’ metal da Aggretsuko”, conta Kazuo.

Até mesmo a escolha do animal para representá-la, o panda vermelho, tem uma razão: ele é fofo, mas também é feroz.

O porta-voz deixa abertas as interpretações sobre que a personagem representa, porém seu perfil lembra o caso de uma repórter de 31 anos do canal estatal NHK que morreu de ataque cardíaco após acumular 159 horas extras em um mês.

O problema é conhecido como “karoshi”, que significa morte por excesso de trabalho, e não representa casos isolados. Em 2015, mais de 2.159 pessoas se suicidaram no Japão por causas relacionadas ao trabalho, segundo dados do Ministério do Trabalho.

O governo tenta combater o mal com reformas nas leis trabalhistas para reduzir a carga extra de horas e tem incentivado empresas a dar folgas de segunda-feira aos funcionários. O mesmo fenômeno é observado na Coreia do Sul, que tem uma cultura de trabalho similar, e aprovou lei para limitar a semana de trabalho a 52 horas.

Fofa ou furiosa?

O primeiro episódio começa difícil para Retsuko. É uma segunda-feira, após pegar o transporte público lotado, ela percebe que está de sandália e logo se depara com uma colega que nota sua gafe. Humilhada, ela logo é bombardeada pela fofoqueira do escritório, com boatos e fotos de crianças.

Quando finalmente se senta para trabalhar, é lembrada que era sua vez de limpar a mesa do chefe. Um trabalho que nem é função do seu cargo. Depois de tudo pronto, o chefe, o “Porcão”, pede que ela faça um chá e ainda reclama que ficou ruim, coroando a manhã com um comentário machista.

A semana mal começou e ela já fica tentada a ir ao banheiro para dar em escape para sua raiva com um sessão de death metal. Por fora, ela permanece a mesma funcionária fofa.

Segundo Shinyashiki, ela passa por uma jornada que é comum para todos os humanos: a dificuldade para definir quem somos.

No entanto, a panda reflete uma imagem que não é compatível com seus desejos e sentimentos. Ela a usa para sobreviver no difícil ambiente de trabalho e acaba anulando a si mesma.

Ao tentar ter uma postura de controle para manter sua caricatura de “boazinha”, por dentro está sendo consumida pela raiva crescente.

Segundo o especialista, ela não consegue ser autêntica e fica presa à imagem que criou, sem reação aos abusos a que é submetida. “Em certo momento ela trabalha como um robô, sem sentimentos e sem vida. Ela precisa encontrar um caminho de volta para ela mesma”, conta ele.

A pessoa pode apresentar “sua máscara” de acordo com um perfil que quer passar, sem deixar espaço para vivenciar emoções mais complexas. Como o colega sempre mal-humorado que afasta a todos, ou a pessoa “boazinha”, como a Retsuko, que não consegue dizer não.

“Ao longo da vida, construímos vários personagens para nós: o profissional, o pai, o companheiro. E às vezes temos personagens com que não sabemos lidar. Quando esse personagem não consegue mais te dar satisfação, a pessoa se sente presa”, explica ele.

A falta de autonomia no trabalho é um grave fator que prejudica a saúde. Segundo estuda da Universidade de Indiana, funcionários com pouca autonomia morrem mais cedo do que outros.

Junto da alta demanda, pesquisadores observaram aumento de 15,4% no risco de vida. Porém, no caso de trabalhos com alta demanda aliados a alta autonomia foi observada redução de 34% no risco em comparação com quem sofre menos estresse.

Além do emocional, ambientes tóxicos, como ser parte da equipe de um chefe “Porcão”, também afetam a saúde física dos profissionais. Pesquisadores da Unifesp e da UFRS relacionaram o assédio moral a doenças como LER (Lesão por Esforços de Repetição) e DOR (Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho).

Depois da fúria, quando ela finalmente deixa escapar o que pensa para o chefe e para sua gerente, vem a culpa.

É o momento em que o copo transborda e ela coloca para fora o lado reprimido da sua personalidade. “Dentro da sua prisão, a pessoa fica imaginando tudo o que falaria ou faria se tivesse a chance. E se sente culpada por isso”, diz.

Por menos Retsukos no mundo

Sentada em sua mesa após levar uma bronca do chefe, Retsuko se imagina pegando o microfone e desejando em sua música que um raio caia na cabeça do Porcão.

Em sua imaginação, a punição ao comportamento do Porcão pode causar certa satisfação na panda, mas efetivamente não ajuda a melhorar a sua felicidade no trabalho. Shinyashiki comenta que, ao pensar assim, as pessoas focam em resultados infrutíferos.

“No mundo virtual, você quer tomar a atitude que te afetou na mesma proporção contra o outro. Isso só me aproxima a ser quem eu odeio. Então eu vou ser uma Retsuko ‘porcona’, para fazer o outro se sentir tão mal como eu me sinto”, explica ele.

Quando gasta sua energia sendo consumida pela raiva, ela não está pensando na realidade que gostaria para si. A existência da pressão por resultados, da empresa que não dá suporte ou do chefe abusivo está fora do controle do profissional.

Para sair da espiral de descontrole que a personagem entrou, o especialista fala que é preciso alinhar nossas expectativas com os acontecimentos da realidade. A partir daí, focar o que quer, tendo ações compatíveis para alcançar a nova realidade.

“Tenho que mudar tudo? Comece pequeno e vá aumentando”, explica ele. “Pode ser uma demissão, mas quando não concordo com algo, posso dizer ‘isto não’. Começo a aprender a dizer não para fora e começo a dizer sim por dentro, para mim, para minha dignidade e meu respeito”.

É preciso também evitar soluções mágicas: a personagem chega a imaginar sua vida de casada, podendo ter estabilidade financeira para abandonar o emprego horrível e ficar em casa.

Uma amiga precisa acordá-la para a realidade: casamento também é um trabalho, assim como cuidar de casa. Retsuko imaginou uma saída para que possa usufruir de um resultado sem realmente se esforçar.

Aqui, Shinyashiki avisa: “O ser humano começa a gerar soluções mágicas esperando que o mundo mude sem que eu mude uma vírgula. Não fique chateado se não receber o que não pediu. Eduque o mundo para ser tratado da forma de deseja”.

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