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Mãe e CEO, sim! Esta executiva foi promovida a CEO quando estava grávida

Maria Oldham, presidente da iZettle no Brasil, fala em entrevista sobre sua transição para o alto cargo durante sua gravidez


Apenas 13% das empresas possuem uma mulher na presidência. O dado da pesquisa Panorama Mulher 2019, da Talenses em parceria com o Insper, representa uma queda em relação a 2018, de 18%.

Quando se fala em maternidade, um tema de peso na vida das mulheres dentro do mercado de trabalho, um levantamento do site Vagas.com mostra que 52% das mães afirmaram ter passado por alguma situação desagradável no emprego quando estavam grávidas ou ao voltarem da licença-maternidade.

Por isso, a capa de setembro da revista americana Inc com a CEO e fundadora da The Wing, Audrey Gelman, ganha tanto destaque. Ela foi a primeira CEO a aparecer grávida na capa de uma revista de negócios.

Embora seja parte natural da vida, ou o início dela, a maternidade ainda é uma polêmica dentro de empresas. Assim, mulheres grávidas e mães encontram dificuldades para entrar e permanecer no mercado de trabalho.

Minorias na liderança, é ainda mais raro uma mulher grávida como CEO. Em junho de 2018, a brasileira Maria Oldham foi surpreendida com o convite para assumir a posição máxima na operação do Brasil da iZettle, fintech sueca líder em meios de pagamentos na Europa.

A promoção não foi uma surpresa, ela conta que já havia conversado sobre a possibilidade, mas confessa que estava preocupada ao dar a notícia de sua gravidez para a chefe.

“Foi uma receptividade que não poderia imaginar. O que mais me chamou atenção foi ela falar que se tornou uma profissional melhor com a maternidade”, conta ela.

Dentro da área financeira, a executiva conta que sempre foi difícil encontrar modelos femininos para inspirar sua carreira, mas que isso não a desanimou para buscar novas oportunidades.

Confira suas reflexões sobre carreira e o diferencial como a maternidade foi tratada dentro da fintech:

Exame: Quando você engravidou, estava preocupada com sua posição na empresa e com a carreira?

Maria Oldham: Acho que naturalmente a maioria das mulheres, dado o mercado de trabalho, se preocupa com o equilíbrio com o lado pessoal, em ser mãe e ter uma família. Me preocupei como seria percebido, mas tive uma surpresa muito positiva quando comuniquei para a empresa e para a minha chefe. Foi uma receptividade que não poderia imaginar. O que mais me chamou atenção foi ela falar que se tornou uma profissional melhor com a maternidade. É diferente do que se ouve quando está no mercado. Eu nunca tinha ouvido.

Exame: Acha que fez diferença ter uma mulher como chefe?

Maria Oldham: Na minha carreira, trabalhei por muitos anos em bancos de investimento. Uma das coisas que toda mulher acaba buscando, mesmo que inconscientemente, são modelos para imaginar como você será em 5 ou 10 anos. No mercado, tinha dificuldade de encontrar esse “eu” mais tarde, o ambiente era sempre muito masculino.

Ter uma chefe mulher ou ter mulheres na liderança nos traz esse modelo. Na iZettle, acho importante ressaltar que as mulheres são valorizadas e não existe diferenciação de talentos. A diversidade entra em todos os aspectos, não só em gênero. Para mim, foi uma vantagem ter uma chefe mulher.

Exame: Você já esperava o convite para ser presidente da iZettle no Brasil?

Maria Oldham: Eu nunca planejei a carreira com muita antecedência, as coisas foram acontecendo. Assim que surgiu o convite para assumir a operação no Brasil, entre outras coisas que já fazia, me chamava a atenção a responsabilidade de liderar grandes times e ajudar a desenvolver pessoas. Como líder, hoje eu quero extrair o melhor profissional dentro de cada um e fazer com que eles sejam melhores para a própria carreira. A maternidade traz essa inteligência de como lidar com as pessoas e tenho desenvolvido bastante.

Exame: E como foi o convite para assumir o cargo?

Maria Oldham: Esse tipo de convite não vem de uma hora para a outra, já havia tido conversas sobre a possibilidade. Quando a gente de fato entendeu como seria a estrutura, como poderia funcionar a mudança de cargo, eu descobri que estava grávida. A resposta foi imediata: “nada muda do ponto de vista da empresa”. Tive muita sorte, a gravidez correu super bem e estava bem de saúde. Pude continuar com as atividades normais e viagens.

Exame: E como foi o processo de transição, com a licença-maternidade e para assumir o novo cargo?

Maria Oldham: Tive muito apoio da empresa no todo. Um dos nossos desafios era aproximar a unidade daqui à matriz. Acho que a volta da licença-maternidade foi uma das coisas que ajudou muito na aproximação, pois várias pessoas da matriz, como diretores, se mostraram disponíveis em vir para o Brasil para me encontrar quando eu não podia viajar.

Exame: Que experiências na sua carreira acha mais relevantes para chegar onde está?

Maria Oldham: Sempre trabalhei com bancos de investimentos, uma das coisas que mais gostava era estar em contato com os fundadores e presidentes das empresa, entender qual era o costume deles, desafios do dia a dia. E tinha contato com eles em momentos cruciais: antes de fazer um IPO, no momento de aquisição, venda… Eu me aproximei muito do lado estratégico e tinha uma visão macro da operação, mas sentia falta do depois. Não tinha o contato diário dentro da empresa, como ficava a execução da estratégia. Na iZettle, pude desenvolver o outro lado, entrei na área de desenvolvimento corporativo e na integração de parcerias e novos produtos. Ali, precisava assumir a liderança para que as coisas acontecessem, para que todas as áreas estivessem prontas para um lançamento.

Então, são três pontos: a carreira em investimento, a oportunidade de iniciar o trabalho com grandes times e fazer parte da área global da iZettle. A experiência de trazer a cultura de fora para cá é uma das coisas que vejo como essencial para um líder. Você pode atingir resultados excelentes a curto prazo, o que vai perdurar, e fazer com que atinja o resultado no longo prazo, é a cultura.

Exame: E como foi a mudança de carreira de grandes bancos para uma fintech?

Maria Oldham: Desde que fiz MBA eu sabia que queria trabalhar na área operacional, era algo que já tinha como desejo e comecei a conhecer pessoas com experiências em startups. Achei que seria o ambiente certo para começar a transição. Quando mudei, logo percebi que o ambiente era completamente diferente. Uma das principais mudanças que senti do banco foi na pressão grande por resultados rápidos. Na iZettle, as pessoas também estavam comprometidas, mas de forma diferente. Não pela pressão, mas por dividir o mesmo propósito. Elas estavam ligadas com a missão da empresa, que é ajudar pequenos empreendedores. O sucesso da empresa é o sucesso do cliente. Isso gera um engajamento que é quase natural.

Exame: E trabalhando numa área majoritariamente masculina, você já percebeu um tratamento diferente por ser mulher?

Maria Oldham: Sim, acho que todas as mulheres passam por isso. Gênero é uma questão no Brasil mais do que lá fora. Como já vinha de um mercado sem modelo para seguir, ser mais jovem e estar diante de profissionais com 30 anos de carreira não era um empecilho quando mudei de empresa. Não acho que deixaria de aceitar oportunidades por não ter modelo. No entanto, me chamou atenção na iZettle ver mulheres em cargos de liderança.

Exame: Como as mulheres podem crescer e se destacar como lideranças nas empresas?

Maria Oldham: Existem alguns estudos interessantes sobre a diferença de comportamento entre mulheres e homens. Quando um homem entrega 60%, ele vende que entrega 80%. A mulher que também entrega 60% fala que entrega de 20 a 40%. Uma das maiores barreiras somos nós mesmas. Não podemos ficar olhando o externo apenas, mas precisamos entender o que não é verdade. Uma lição que tiro é que não precisamos ter um exemplo de quem trilhou o caminho para você, podemos atingir aquilo que queremos.

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