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‘Golpe das tarefas’: como uma falsa vaga de home office fez uma mulher perder R$ 1,2 mil

Vítima recebeu pequenas quantias por tarefas simples antes de ser convencida a fazer sucessivos depósitos via PIX; fraudes com falsas vagas de emprego cresceram 56% em um mês
(Imagem gerada por IA)

Por Trainee

Ester Nunes, de 26 anos, é profissional de Recursos Humanos — área que, ironicamente, lida todo dia com processos seletivos de verdade. Mesmo assim, caiu num golpe que já rendeu prejuízo de R$ 1,2 mil: uma falsa promessa de dinheiro fácil disfarçada de vaga de home office.

O esquema começa de forma quase inofensiva: a vítima é convidada a cumprir tarefas simples online — como avaliar empresas no Google — em troca de pequenas recompensas em dinheiro. É só depois que o golpe ganha corpo, quando os criminosos passam a exigir depósitos via PIX, sob o argumento de que isso vai aumentar os lucros, com supostas operações em criptomoedas ou justificativas parecidas. Na etapa final, a vítima faz um depósito mais alto — e não recebe nenhum retorno.

O golpe em números

A escala do “golpe das tarefas” no Brasil.

R$ 1,2 mil

prejuízo da vítima

56%

alta de golpes de falso emprego em 1 mês

17,9%

das denúncias à SOS Golpe (2ª modalidade)

2 mi+

visualizações do relato dela no TikTok

No caso de Ester, o primeiro depósito foi de R$ 300. Para “liberar” os pagamentos, os golpistas exigiram mais R$ 900 — valor que ela pagou usando parte da própria reserva financeira. Em seguida veio uma nova cobrança, agora de R$ 2,6 mil. Ao dizer que não tinha esse valor, foi informada de que perderia tudo o que já havia enviado se não continuasse pagando. Só depois de pesquisar sobre o assunto ela descobriu que o saldo exibido na plataforma era fictício, e que o único dinheiro que realmente havia saído da sua conta era o PIX enviado direto aos criminosos.

Segundo o pesquisador de segurança Jonathan Ramos, da ESET Brasil, os golpes envolvendo falsas oportunidades de emprego vêm se diversificando, mas seguem sempre o mesmo objetivo: convencer a vítima a transferir dinheiro ou fornecer dados pessoais. O primeiro contato costuma vir por WhatsApp ou Telegram, quase sempre em nome de empresas conhecidas, para transmitir credibilidade e facilitar a convicção da vítima.

Sinais de que a vaga pode ser golpe

Fique atento a estes indícios em qualquer processo seletivo.

Você não se candidatou à vaga
Primeiro contato acontece por WhatsApp ou Telegram
Promessa de dinheiro fácil ou renda extra
Salário muito acima da média de mercado
Pedido de PIX ou qualquer tipo de pagamento
Solicitação de documentos pessoais logo nas primeiras etapas

Além do golpe das tarefas, Ramos alerta para outra modalidade comum: falsas vagas com cobrança de taxa, em que a vítima acredita ter sido aprovada num processo seletivo, mas é informada de que precisa pagar por cursos, certificados, treinamentos ou exames admissionais antes de assumir o cargo. O recado dele é direto: “quem paga pelos custos da contratação é o empregador, nunca o candidato”. Empresas sérias não cobram nada de quem está apenas participando de uma seleção.

Existe ainda uma terceira frente, voltada ao roubo de identidade: criminosos simulam processos seletivos inteiros e pedem selfies, vídeos e fotos de documentos pessoais — material que depois pode ser usado para abrir contas bancárias, contratar empréstimos ou cometer outras fraudes em nome da vítima. Por isso, a recomendação é nunca compartilhar documentos pessoais antes de uma aprovação formal e do recebimento de uma proposta por escrito.

Como se proteger

Orientações de especialistas contra golpes de falso emprego.

Pesquise a empresa (site, endereço, telefone) Confirme a identidade do recrutador
Desconfie de convite sem ter mandado currículo Nunca faça pagamentos no processo seletivo
Evite baixar arquivos por WhatsApp ou SMS Não clique em links suspeitos
Só envie documentos após confirmar a vaga Mantenha antivírus atualizado

Caiu no golpe? Existe caminho para tentar reaver o dinheiro. Para fraudes envolvendo PIX, o Banco Central mantém o Mecanismo Especial de Devolução (MED), que permite aos bancos tentar bloquear e devolver os recursos enviados ao golpista — mas o prazo importa, e muito.

Como funciona o MED

Prazos do mecanismo de devolução do Banco Central.

Prazo O que acontece
Até 80 dias Prazo para a vítima solicitar a devolução ao banco
Até 7 dias Prazo de análise do caso pelo Banco Central
Até 96 horas Prazo de devolução, se a fraude for comprovada
Até 90 dias Limite para o banco do golpista seguir monitorando e bloqueando novos valores

Vale o alerta: o mecanismo só funciona se ainda houver saldo disponível na conta usada pelo golpista — em muitos casos, os criminosos sacam ou transferem o dinheiro rapidamente, antes que o banco consiga agir. Se, ao fim do prazo, não houver recursos suficientes, o MED é encerrado e o banco da vítima não é obrigado a cobrir o prejuízo com recursos próprios. Nesses casos, ainda dá para recorrer ao Procon, à Justiça ou registrar reclamação formal junto ao Banco Central — mas o caminho fica bem mais longo do que agir logo nas primeiras horas após perceber o golpe.

Para quem trabalha em RH ou lidera contratações, o episódio também é um lembrete institucional: fraudes que usam o nome de empresas conhecidas para dar credibilidade ao golpe prejudicam a reputação da marca, mesmo sem culpa direta da companhia. Vale manter um canal oficial e visível de comunicação sobre processos seletivos em andamento, para que candidatos tenham como conferir rapidamente se um contato é legítimo.