Ex-funcionários acusam Meta de usar IA para demitir quem tirou licença médica



Por Trainee
Vinte e seis ex-funcionários da Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, decidiram processar a empresa depois de uma suspeita que soa como roteiro de filme distópico: a de que um sistema de inteligência artificial teria ajudado a decidir quem seria mandado embora durante a última onda de demissões da companhia.
Segundo o processo, ao qual a agência Reuters teve acesso, a ferramenta teria selecionado de forma desproporcional trabalhadores com deficiência ou que haviam se afastado por licença médica. A ação foi protocolada na segunda-feira (13) em um tribunal federal de Oakland, na Califórnia.
De acordo com os autores, a Meta teria usado critérios como produtividade e uso de ferramentas de IA para decidir quem entraria na lista de cortes — um método que, na prática, teria prejudicado justamente quem precisou faltar ao trabalho por questões de saúde.
O processo em números
Os números por trás da ação movida contra a Meta.
ex-funcionários no processo
demitidos em maio
da força de trabalho global
estados dos EUA dos autores
Os 26 autores da ação optaram por manter o anonimato e vivem em seis estados americanos, incluindo Califórnia e Nova York, além do Distrito de Columbia. Eles alegam que a Meta violou leis federais e estaduais que proíbem discriminação ou retaliação contra pessoas com deficiência, que tiram licença médica ou que estão grávidas.
A Meta rebateu a acusação. Em nota enviada à Reuters na terça-feira (14), a empresa negou qualquer participação de inteligência artificial nas decisões de corte, afirmando que quem define esse tipo de escolha continua sendo pessoas, e não algoritmos.
Linha do tempo
Como o caso chegou até aqui.
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| Maio de 2026 | Início da onda de demissões na Meta. |
| 13 de julho | Ação judicial protocolada em Oakland, Califórnia. |
| 14 de julho | Meta nega uso de IA nas decisões, em nota à Reuters. |
As acusações surgem logo depois de uma rodada de cortes que, segundo a Bloomberg, representou cerca de 10% da força de trabalho da companhia — que tinha aproximadamente 78,9 mil funcionários no fim de 2025. As notificações de desligamento começaram pelos times da Ásia e só depois chegaram aos Estados Unidos. Até o momento, não há confirmação sobre impacto entre funcionários da Meta no Brasil.
Antes mesmo dos cortes, a empresa já havia avisado que cerca de 7 mil funcionários seriam realocados para áreas ligadas à inteligência artificial — uma mudança que, segundo relatos internos, não era opcional e ajudou a esquentar o clima dentro da empresa. Em comunicado, a diretora de recursos humanos da Meta, Janelle Gale, justificou a decisão como parte de um esforço para tornar a operação mais eficiente e compensar o tamanho dos investimentos que a companhia vem fazendo em IA.
E esse investimento não é pequeno. A Meta prevê aplicar entre US$ 115 bilhões e US$ 135 bilhões em 2026 — algo entre R$ 570 bilhões e R$ 670 bilhões — principalmente para ampliar sua capacidade de desenvolver tecnologias de inteligência artificial, incluindo compra de chips e construção de novos centros de dados. No fim de fevereiro, a empresa já havia fechado um acordo com a fabricante de chips AMD para comprar milhões de processadores, num contrato avaliado em pelo menos US$ 60 bilhões.
Para quem trabalha com gestão de pessoas ou lida com processos de desligamento, o caso é um alerta prático: o uso de IA para apoiar decisões de RH — de recrutamento a corte de quadro — já é realidade em boa parte das grandes empresas, mas critérios automatizados que cruzam produtividade com histórico de afastamentos por saúde caminham perigosamente perto de discriminação, mesmo quando não é essa a intenção declarada. Documentar critérios de desligamento, auditar o papel exato que algoritmos exercem nas decisões e manter clareza sobre quem responde por elas deixou de ser boa prática e passou a ser proteção jurídica.
