Entregadores criam base com café, banheiro e videogame para descansar entre corridas



Por Trainee
Enquanto milhões de brasileiros recebem comida e compras em casa com um toque na tela, poucos param para pensar em quem está do outro lado da entrega — e no que essa pessoa faz quando precisa, simplesmente, ir ao banheiro. Em São Paulo, um grupo de entregadores decidiu resolver esse problema com as próprias mãos: criou uma base com água, café, banheiro, micro-ondas, tomadas para recarregar celular e até um espaço só para descansar entre uma corrida e outra.
O espaço foi mostrado no quadro “Delivery com Maju”, exibido pelo Fantástico, em que a jornalista Maju Coutinho conversou com entregadores sobre os desafios da profissão. Um dos organizadores da base é o motoboy conhecido como Jobinho, que conta que o local nasceu para suprir necessidades básicas enfrentadas todos os dias pela categoria.
A categoria em números
O tamanho do exército de entregadores no Brasil, segundo o IBGE.
entregadores por aplicativo no Brasil em 2024
de alta em relação a dois anos antes
por semana é a rotina relatada por Jobinho
base mantida por doações dos próprios entregadores
A base funciona como ponto de apoio para quem passa horas trabalhando nas ruas. Além de café, água e marmitas, o local conta com sofá, videogame, banheiro, micro-ondas e tomadas para recarregar tanto celulares quanto baterias de bicicletas elétricas — tudo mantido com a colaboração dos próprios entregadores, sem depender de nenhuma empresa de aplicativo.
O que tem na base
Estrutura mantida com doações dos próprios motoboys.
| Café e água | Marmitas e micro-ondas |
| Banheiro | Sofá para descanso |
| Videogame | Tomadas p/ celular e bike elétrica |
Segundo Jobinho, o espaço vai muito além do conforto: ele atende trabalhadores que, muitas vezes, não conseguem sequer usar um banheiro durante o expediente. “A gente precisa de um auxílio, precisa de uma estrutura”, resume o entregador. Ele relata que boa parte dos estabelecimentos por onde passa libera o banheiro só para clientes — o que complica bastante a rotina de quem passa o dia inteiro fazendo entregas pela cidade.
Jobinho também chama atenção para um risco pouco discutido da profissão: quando um motoboy sofre um acidente, toda a renda da família pode ficar comprometida de uma hora para outra. Sem vínculo formal de emprego, o entregador que se machuca deixa de ser provedor e passa a representar um custo extra para casa — justamente o tipo de vulnerabilidade que a base tenta amenizar, ainda que só parcialmente.
A função da base vai além de servir de parada rápida durante o expediente. De acordo com Jobinho, o espaço também acolhe entregadores que não têm onde dormir em São Paulo. Parte deles trabalha durante a madrugada e usa o local para descansar antes de retomar a jornada; quando a base está fechada, esses trabalhadores recorrem a motéis para passar a noite — uma solução cara e instável para quem já vive de renda incerta. Por isso, segundo o entregador, manter o projeto funcionando é prioridade máxima para quem participa da iniciativa.
A trajetória do próprio Jobinho ilustra bem a instabilidade que marca a profissão. Ele migrou para as entregas durante a pandemia de Covid-19, depois de ter trabalhado como motorista de aplicativo. Começou como auxiliar de um amigo, passou pela bicicleta, depois por uma mobilete e, mais tarde, conseguiu comprar a própria moto. Hoje, diz trabalhar de segunda a segunda e aponta como principal vantagem da profissão poder definir os próprios horários — em troca, a renda varia diariamente, dependendo da demanda e das condições de trabalho de cada dia.
Para quem acompanha o debate sobre proteção social de trabalhadores de aplicativo — inclusive decisões recentes da Justiça sobre acesso a benefícios do INSS para entregadores acidentados —, o caso da base reforça um padrão que já vem se repetindo: quando a estrutura básica de apoio não vem das plataformas, ela tende a nascer de baixo para cima, organizada pelos próprios trabalhadores, muitas vezes com recursos limitados e sustentabilidade incerta a longo prazo.
