🚽 DIREITOS BÁSICOS

Entregadores criam base com café, banheiro e videogame para descansar entre corridas

Espaço em São Paulo é mantido com doações dos próprios motoboys; Brasil tinha 485 mil entregadores por aplicativo em 2024, segundo o IBGE
(Divulgação: @TrabalhadoresSemDireitos)

Por Trainee

Enquanto milhões de brasileiros recebem comida e compras em casa com um toque na tela, poucos param para pensar em quem está do outro lado da entrega — e no que essa pessoa faz quando precisa, simplesmente, ir ao banheiro. Em São Paulo, um grupo de entregadores decidiu resolver esse problema com as próprias mãos: criou uma base com água, café, banheiro, micro-ondas, tomadas para recarregar celular e até um espaço só para descansar entre uma corrida e outra.

O espaço foi mostrado no quadro “Delivery com Maju”, exibido pelo Fantástico, em que a jornalista Maju Coutinho conversou com entregadores sobre os desafios da profissão. Um dos organizadores da base é o motoboy conhecido como Jobinho, que conta que o local nasceu para suprir necessidades básicas enfrentadas todos os dias pela categoria.

A categoria em números

O tamanho do exército de entregadores no Brasil, segundo o IBGE.

485 mil

entregadores por aplicativo no Brasil em 2024

~10%

de alta em relação a dois anos antes

7 dias

por semana é a rotina relatada por Jobinho

1

base mantida por doações dos próprios entregadores

A base funciona como ponto de apoio para quem passa horas trabalhando nas ruas. Além de café, água e marmitas, o local conta com sofá, videogame, banheiro, micro-ondas e tomadas para recarregar tanto celulares quanto baterias de bicicletas elétricas — tudo mantido com a colaboração dos próprios entregadores, sem depender de nenhuma empresa de aplicativo.

O que tem na base

Estrutura mantida com doações dos próprios motoboys.

Café e água Marmitas e micro-ondas
Banheiro Sofá para descanso
Videogame Tomadas p/ celular e bike elétrica

Segundo Jobinho, o espaço vai muito além do conforto: ele atende trabalhadores que, muitas vezes, não conseguem sequer usar um banheiro durante o expediente. “A gente precisa de um auxílio, precisa de uma estrutura”, resume o entregador. Ele relata que boa parte dos estabelecimentos por onde passa libera o banheiro só para clientes — o que complica bastante a rotina de quem passa o dia inteiro fazendo entregas pela cidade.

Jobinho também chama atenção para um risco pouco discutido da profissão: quando um motoboy sofre um acidente, toda a renda da família pode ficar comprometida de uma hora para outra. Sem vínculo formal de emprego, o entregador que se machuca deixa de ser provedor e passa a representar um custo extra para casa — justamente o tipo de vulnerabilidade que a base tenta amenizar, ainda que só parcialmente.

A função da base vai além de servir de parada rápida durante o expediente. De acordo com Jobinho, o espaço também acolhe entregadores que não têm onde dormir em São Paulo. Parte deles trabalha durante a madrugada e usa o local para descansar antes de retomar a jornada; quando a base está fechada, esses trabalhadores recorrem a motéis para passar a noite — uma solução cara e instável para quem já vive de renda incerta. Por isso, segundo o entregador, manter o projeto funcionando é prioridade máxima para quem participa da iniciativa.

A trajetória do próprio Jobinho ilustra bem a instabilidade que marca a profissão. Ele migrou para as entregas durante a pandemia de Covid-19, depois de ter trabalhado como motorista de aplicativo. Começou como auxiliar de um amigo, passou pela bicicleta, depois por uma mobilete e, mais tarde, conseguiu comprar a própria moto. Hoje, diz trabalhar de segunda a segunda e aponta como principal vantagem da profissão poder definir os próprios horários — em troca, a renda varia diariamente, dependendo da demanda e das condições de trabalho de cada dia.

Para quem acompanha o debate sobre proteção social de trabalhadores de aplicativo — inclusive decisões recentes da Justiça sobre acesso a benefícios do INSS para entregadores acidentados —, o caso da base reforça um padrão que já vem se repetindo: quando a estrutura básica de apoio não vem das plataformas, ela tende a nascer de baixo para cima, organizada pelos próprios trabalhadores, muitas vezes com recursos limitados e sustentabilidade incerta a longo prazo.