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Deputado trumpista, filho de brasileiros, eleito nos EUA mentiu no currículo
Empresas e universidades pelas quais George Santos diz ter passado não têm registros do parlamentar; ele não quis se manifestar
Por The New York Times | Tempo de leitura: 5 min
(Foto: Reprodução/Redes sociais/@santos4_congress)

George Santos —cuja eleição em Long Island, Nova York, nas midterms no mês passado ajudou o Partido Republicano a conquistar uma maioria apertada na Câmara dos Deputados— baseou sua candidatura na ideia de que era “a plena encarnação do sonho americano”, e de que sua razão para entrar na política era proteger esse sonho para todos.

Sua biografia de campanha propagandeou sua trajetória digna de conto de fadas: ele é filho de imigrantes brasileiros e o primeiro republicano abertamente gay a conquistar uma vaga na Câmara. Conforme seu relato, depois de se formar em uma faculdade pública de Nova York, virou “financista e investidor experiente em Wall Street”, com portfólio imobiliário familiar composto de 13 imóveis e uma organização beneficente de resgate de animais que já teria salvado a vida de mais de 2.500 cães e gatos.

Mas uma investigação realizada pelo New York Times põe em xeque trechos importantes do currículo que ele passou aos eleitores. A apuração usou documentos públicos e judiciais dos Estados Unidos e do Brasil e incluiu várias tentativas de verificar as alegações feitas por Santos, 34, durante a sua campanha.

O Citigroup e o Goldman Sachs, grandes empresas de Wall Street que constam na biografia de Santos, afirmaram que não têm qualquer registro de que ele tenha trabalhado para elas em algum momento. Diretores do Baruch College, pelo qual Santos diz que se graduou em 2010, não encontraram nenhum registro de alguém com seu nome ou sua data de nascimento que tivesse se formado naquele ano.

Tampouco há evidências de que sua ONG de resgate de animais, Friends of Pets United, seja uma organização isenta da obrigação de pagar impostos, como Santos alegou. A Receita Federal americana não conseguiu localizar nenhum indício de uma entidade beneficente registrada com esse nome.

A declaração de valores financeiros de Santos indica uma vida com alguma riqueza. Ele emprestou mais de US$ 700 mil à sua campanha nas midterms, doou milhares de dólares a outros candidatos nos últimos dois anos e relatou em sua declaração financeira receber um salário de US$ 750 mil, além de mais de US$ 1 milhão em dividendos de sua empresa, a Devolder Organization.

Mas a firma, que não tem um site público na internet nem página no LinkedIn, é um enigma. Num site de campanha, Santos certa vez descreveu a Devolder como “a empresa de sua família” e disse que ela administrava ativos de US$ 80 milhões. Em sua declaração financeira para o Congresso, descreveu a empresa como uma consultoria de apresentação de capitais, uma espécie de firma especializada que atua como intermediária entre fundos de investimentos e investidores com muito dinheiro. Mas as afirmações de Santos não incluíram os nomes de quaisquer clientes —omissão que, segundo três especialistas em lei eleitoral, pode ser problemática se tais clientes de fato existirem.

Por fim, embora Santos tenha afirmado que a sua fortuna familiar vem de investimento em imóveis, ele não divulgou dados sobre eles, e a reportagem não conseguiu encontrar seus registros.

A vitória de Santos foi considerada inesperada. Ele foi eleito por uma diferença de oito pontos, em um distrito do norte de Long Island e nordeste de Queens que costumava favorecer democratas. Ele tinha sofrido uma derrota decisiva no mesmo distrito em 2020 para o democrata Tom Suozzi, e parecera demasiado atrelado ao ex-presidente Donald Trump e suas posições para mudar sua sorte.

No início deste mês, sua presença em um evento de gala em Manhattan que teve a participação de nacionalistas brancos e nomes da direita conhecidas por espalhar teorias da conspiração evidenciou seus vínculos com a base conservadora de Trump.

Ao mesmo tempo, novas revelações trazidas à tona pelo New York Times, incluindo a omissão de informações-chave nas declarações financeiras pessoais de Santos e acusações criminais contra ele no Brasil por fraude com cheques, podem criar problemas éticos e possivelmente legais para ele quando assumir o cargo.

George Santos não respondeu a reiterados pedidos da reportagem para que fornecesse documentos ou um currículo com datas que ajudassem a confirmar as afirmações que ele fez na campanha. Ele se negou a ser entrevistado, e seu advogado, Joe Murray, não respondeu a uma lista de perguntas detalhadas enviadas pelo jornal. Em declaração breve, ele afirmou que “não surpreende que o congressista eleito George Santos tenha inimigos no New York Times que tentam sujar seu nome com essas declarações difamatórias”.

Também a Big Dog Strategies, consultoria política de viés republicano que lida com gerenciamento de crises, não respondeu à lista de perguntas.

Processo Criminal no Brasil

Santos disse que nasceu e cresceu na região do Queens, em Nova York, e que seus pais emigraram do Brasil. Afirmou que seu pai é católico e tem raízes em Angola. Sua mãe, Fátima Devolder, seria descendente de imigrantes que fugiram da perseguição a judeus na Ucrânia e dos choques da Segunda Guerra Mundial na Bélgica. Ele se descreveu como judeu não praticante, mas também já se disse católico.

Registros indicam que a mãe de Santos, que morreu em 2016, viveu por algum tempo em Niterói (RJ), onde trabalhou como enfermeira. Depois de obter um diploma de equivalência do ensino médio, o congressista eleito também teria passado algum tempo em Niterói.

Em 2008, aos 19 anos, Santos roubou o talão de cheques de um homem de quem sua mãe era cuidadora, conforme revelam documentos de tribunal brasileiros descobertos pelo New York Times. Registros policiais e do tribunal revelam que ele fez compras com os cheques roubados, incluindo um par de sapatos. Dois anos mais tarde, ele confessou o crime e foi indiciado.

O tribunal e o promotor local no Brasil confirmaram que o processo continua em aberto. Santos ignorou uma intimação judicial, e um oficial de justiça não conseguiu localizá-lo em seu endereço declarado.

Esse período no Brasil corresponde, em parte, à época em que Santos disse que estava estudando no Baruch College, onde teria recebido diploma de bacharel em economia e finanças. Mas, mesmo lançando mão de diversas variações de seu primeiro nome, nome do meio e sobrenome, o Baruch College não conseguiu encontrar registros de que ele tivesse se formado lá em 2010, conforme alegou.

Consta de uma biografia de Santos no site do Comitê do Congresso Nacional Republicano —braço de campanhas do Partido Republicano na Câmara dos Deputados—, que ele também teria passado pela New York University. Essa alegação não é repetida em nenhum outro lugar, e um representante da universidade não encontrou nenhum registro de presença que correspondesse a seu nome e data de nascimento.

Santos afirmava que, depois de se formar na faculdade, teria começado a trabalhar no Citigroup e logo se tornado um “gerente associado de ativos” na divisão imobiliária da empresa, segundo uma versão de sua biografia que constava em seu site de campanha ainda em abril.

Uma porta-voz do Citigroup, Danielle Romero-Apsilos, disse que a companhia não podia confirmar que Santos tenha trabalhado para ela. Disse também que desconhece o nome do cargo que Santos disse ter ocupado e destacou que a empresa vendeu suas operações de gerenciamento de ativos em 2005.

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