‘Assédio por pelos’: por que campanha para incentivar homens a usar bermuda no trabalho causa polêmica no Japão



Por Trainee
Enfrentar um verão recorde de calor no Japão de terno e gravata deixou de ser obrigatório para os homens de Tóquio — mas a liberdade de vestir bermuda no escritório abriu uma discussão que ninguém esperava: a dos pelos nas pernas.
O governo metropolitano de Tóquio lançou em abril de 2026 a iniciativa Tokyo Cool Biz, ampliação de uma campanha que já é tradição no verão japonês e passou a autorizar, além de camisetas e tênis, o uso de bermudas no ambiente corporativo. A ideia por trás da flexibilização é dupla: dar mais conforto térmico aos funcionários e reduzir o consumo de energia com ar-condicionado nos escritórios.
Quase quatro meses depois, a medida ainda divide opiniões. Parte dos funcionários aprova a regra mais solta, que traz mais conforto em dias de calor extremo. Outra parte considera a mudança injusta com as mulheres, que continuam tendo que usar meia-calça mesmo em dias quentes, sempre que optam por deixar as pernas à mostra.
A polêmica em números
Como a nova regra de vestimenta divide o Japão.
contra o uso de bermuda
apoiam a nova regra
ano de criação do Cool Biz
lançamento do Tokyo Cool Biz
É nesse contexto que nasceu o termo sunehara, criado por internautas japonesas para descrever o desconforto de conviver com pernas peludas expostas no ambiente de trabalho — a palavra une “sune” (perna) e “hara”, de assédio (harassment). O apelido pegou rápido nas redes e virou símbolo do racha de opinião provocado pela liberação das bermudas.
A pesquisa que colocou números nessa polêmica foi conduzida em junho de 2026 pela Gorilla Clinic, rede especializada em tratamentos estéticos — entre eles, remoção de pelos. O resultado mostrou 53,5% dos entrevistados contrários ao uso da bermuda no trabalho durante o verão, contra 46,5% favoráveis à mudança. Entre quem rejeita a nova regra, homens e mulheres apontaram o mesmo motivo principal: preocupação com a aparência do corpo e, especificamente, com os pelos.
O diretor da clínica, Akifumi Funatsu, relatou um aumento na procura por depilação a laser motivado não só por estética, mas por uma espécie de etiqueta social ligada ao uso da bermuda — segundo ele, cresceu o número de homens buscando o procedimento para evitar constranger colegas de trabalho.
Linha do tempo do Cool Biz
Da campanha de economia de energia até a polêmica das bermudas.
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| 2005 | Yuriko Koike, então ministra do Meio Ambiente, cria o Cool Biz, campanha nacional de economia de energia com manga curta. |
| Abril de 2026 | Koike, agora governadora de Tóquio, lança o Tokyo Cool Biz e libera o uso de bermuda. |
| Junho de 2026 | Pesquisa da Gorilla Clinic mostra divisão de opiniões sobre a nova regra. |
| Julho de 2026 | Debate sobre o “sunehara” ganha repercussão dentro e fora do Japão. |
Funcionários do próprio governo metropolitano tentam apaziguar a discussão. Um servidor da área ambiental de Tóquio defendeu publicamente que a intenção da iniciativa nunca foi impor um padrão de vestimenta, e sim ampliar as opções de roupa disponíveis para lidar com o calor extremo — desde que nada seja usado de forma ofensiva aos colegas.
O episódio japonês serve de estudo de caso para qualquer área de RH e gestão de pessoas, inclusive fora do Japão: mudanças de política de vestimenta corporativa que parecem puramente práticas — nesse caso, motivadas por clima e economia de energia — podem esbarrar em normas sociais não escritas, especialmente quando afetam homens e mulheres de forma desigual. Antes de flexibilizar um dress code, vale mapear como a mudança pode ser percebida por diferentes grupos dentro da empresa, comunicar critérios objetivos do que é ou não aceitável e abrir canal para que desconfortos sejam relatados sem viralizar como aconteceu no Japão.
Com verões cada vez mais quentes batendo recorde atrás de recorde, a tendência é que mais empresas — japonesas ou não — precisem repensar códigos de vestimenta pensados para climas mais amenos. O caso de Tóquio mostra que essa adaptação não é só uma questão de tecido e temperatura: é também sobre como equilibrar conforto individual e convivência coletiva no ambiente de trabalho.
