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As lições do funcionário mais antigo do mundo para sua carreira
Walter Orthmann tem 100 anos de idade e mais de oito décadas de trabalho na mesma empresa, um recorde. Quais ensinamentos a história de Walter traz sobre longevidade, motivação e resiliência?
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(Reprodução/Julio Cavalheiro/SECOM)

O mundo era completamente outro em meados dos anos 30. A televisão ainda levaria anos para chegar ao Brasil, a Pelé só ganharia sua primeira Copa do Mundo em algumas décadas e o nosso presidente era Getúlio Vargas. Porém, o senhor Walter Orthmann já estava devidamente empregado em uma companhia têxtil no sul do país – onde permanece até os dias de hoje, precisamente 84 anos depois.

Walter Orthmann trabalha na RenauxView, empresa de Brusque, Santa Catarina, há 84 anos. Nascido em 1922, Walter – hoje recém centenário – foi contratado aos 15 anos, em 1938, para exercer a função de auxiliar de expedição e foi a partir dali que começou a galgar posições internamente até o posto de gerente de venda, no qual se mantém até hoje. No longínquo 17 de janeiro de 1938, Walter Orthmann assinou sua primeira e única ficha de admissão em uma empresa.

À época, a empresa fundada em 1925 ainda chamava-se Indústrias Renaux S.A. e sua ficha foi a de número 130. Hoje a companhia conta com mais de 600 funcionários. Além de impressionante, a longevidade de Walter é única, já que o funcionário bateu o recorde mundial do homem que trabalha a mais tempo na mesma empresa duas vezes, segundo o Guinness World Records.

Walter presenciou na pele as mudanças profundas que o Brasil e o mundo viriam a enfrentar com o passar das décadas. Quando Walter iniciou sua carreira, a Segunda Guerra Mundial ainda não havia iniciado, o Estado Novo de Vargas tinha acabado de começar e a CLT nem sequer existia. Nessas oito décadas e meia na indústria têxtil, Walter viu o Brasil trocar de presidente mais de 20 vezes e seu salário já foi pago em nove moedas diferentes.

A história de Walter é um exemplo pela longevidade na mesma companhia, mas também ressalta a importância da adaptação. Mesmo aos 100 anos, Walter está atento e atualizado e reforça a necessidade de sempre entender o porquê das mudanças de processos e se manter conectado com as novas tendências e práticas no mercado.

A necessidade em se mantar atualizado fez com que, ao longo dos anos, Walter tenha mudado suas ferramentas de trabalho: os blocos de anotação e recibos de papel viraram máquinas de escrever e calculadoras, que então se transformaram em smartphones e tablets.

“Aprimorar suas habilidades tecnológicas e estar consciente de que eventuais vantagens consideradas competitivas do passado passaram a ser exigências cada vez mais enfáticas neste dinâmico mundo corporativo”, explica Mauro Wainstock, palestrante e sócio-fundador do HUB 40+, consultoria empresarial focada no público acima dos 40 anos.

“Ânsia, humildade e disposição para aprender sempre, tanto tecnicamente, como incrementando suas soft skills”, complementa o especialista.

“Cabeça boa e mente em dia”

Quando questionado acerca da origem de sua motivação, Walter é categórico e afirma que o seu próprio trabalho é a sua força motriz. “Se você não tem um motivo, você vai ficar dormindo. Infelizmente, todos os meus amigos que se aposentaram e pararam de trabalhar já morreram. É o trabalho que nos mantém vivos”, afirma ele em entrevista. “Tem que ter vontade de trabalhar. Um trabalho que você gosta de fazer, porque ai você nem sente o tempo passar”, complementa.

Mauro Wainstock, palestrante, mentor de executivos e sócio-fundador do HUB 40+, consultoria empresarial focada no público acima dos 40 anos, explica que o profissional idoso de hoje sabe que pode viver mais de 90 anos – uma realidade diferente do Brasil de algumas décadas atrás – e por isso é fundamental encontrar motivações que façam a vida dessa pessoa ter sentido, e um desses motivadores pode ser o trabalho.

“A pessoa precisa se sentir útil, produtivo e ser remunerado para se sustentar durante estes anos adicionais de vida. O trabalho também permite aplicar e transmitir a sua experiência, além de aumentar a autoestima, socializar e trocar conhecimentos com as gerações mais novas, vivenciando inovações e absorvendo aprendizados diários”, afirma Mauro em conversa com a EXAME.

Para Mauro, a história de Walter traz importante ensinamentos sobre a resiliência e a vontade de deixar um legado. “Ter um olhar positivo sobre a vida e a certeza de que a idade é apenas um número: podemos ser o que e quando quisermos”, explica. “Assim como o envelhecimento é inerente ao processo, o talento, o entusiasmo e a vontade de se reinventar são obrigatórias para o êxito”, complementa.

O valor dos mais velhos

Com um mundo empresarial cada vez mais acelerado e com distâncias encurtadas, seja pelos avanços tecnológicos, seja pela mudança nos processos e no entendimento do trabalho como um todo, conhecer histórias como a de Walter é um ponto fora da curva.

“Esta aceleração é avassaladora. Neste sentido, o foco passa a ser uma alternativa prudente e recomendável. Não vamos abraçar o mundo. É fato. Então devemos eleger prioridades, direcionando nosso tempo e esforço para aquilo que pode trazer benefícios concretos”, analisa Mauro.

Mesmo sendo o mais longevo, Walter teve medo de que o tempo o jogasse no limbo. Em 2006 ficou preocupado com a mudança na diretoria da empresa, e com 68 anos de casa, achou que poderia ser dispensado. Já que, em sua visão, “não iriam querer uma pessoa velha na equipe”.

“E quem disse que o novo não pode ser mais velho? Quem disse que dinamismo é sinônimo de eficiência ou que esta aceleração gera obrigatoriamente resultados financeiros mais robustos? Devemos parar de querer estereotipar, de colocar todos em caixas e dizer o que cada um deve fazer para se enquadrar”, argumenta Mauro, ao discutir as problemáticas do etarismo no meio corporativo e os benéficos das trocas entre gerações distintas. “Essa integração multiplica aprendizados, propicia novos insights e leva mais pluralidade à equipe; enfim, é um ganho para todos os envolvidos”.

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