Três em cada dez brasileiros não sabem o salário do parceiro, mostra pesquisa

Por Estadão

Aos 35 anos e casada há 16, Thavane Sales nunca soube o salário do marido. Não por falta de curiosidade, mas ela prefere não insistir: “Acho que ele não me fala exatamente quanto ganha porque acha que vou gastar mais”. O dono de loja de ferramentas no Distrito Federal se ocupa das principais despesas da casa e Thavane ajuda quando pode.

A revendedora de lingerie faz parte da estatística: três em cada dez brasileiros não sabem o quanto seu cônjuge ganha por mês. O dado é do estudo feito pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), divulgado recentemente.

Na opinião da economista-chefe do SPC, Marcela Kawauti, trata-se de um número alto, sintoma de que o brasileiro “não prioriza o cuidado com as finanças”.

“Tem dois problemas principais em esconder o valor do seu salário: você não consegue fazer um orçamento único para a casa e não consegue otimizar os gastos”, afirma a economista. “Se você acha que seu parceiro ganha mais do que ele ganha, vocês podem estar vivendo um padrão de vida que não condiz com seu orçamento e podem acabar se endividando”, explica.

Para a economista-chefe do SPC, omitir o salário do parceiro está diretamente relacionado com o fato de as finanças do lar serem um tabu na sociedade. “Não é que as pessoas sejam irresponsáveis, mas falta priorizar esse cuidado. Elas acham que é uma conversa chata, vai deixando de lado. E só comunica o parceiro quando o problema está gravíssimo”, comenta.

O levantamento também mostra que 25,3% das famílias consultadas dizem que não conversam sobre o orçamento, enquanto 18,1% só o fazem quando a situação financeira está ruim. Nesta mesma linha, uma outra pesquisa feita pelo SPC, em parceria com a CNDL, mostra que seis em cada dez brasileiros não sabem o quanto devem.

Compra e esconde – Mesmo nas famílias em que os cônjuges falam abertamente sobre seus salários, 29% omitem ao menos uma despesa por mês do parceiro ou parceira. No caso de Thavane, são aproximadamente R$ 500 gastos em sapatos, roupas e maquiagens para ela e a filha de sete anos.

A pesquisa mostra que esses são os itens mais “escondidos” pelas mulheres: roupas (62,0%), calçados (59,9%), maquiagem, perfume e cremes (49,4%) e acessórios (39,9%). Já os homens costumam omitir mais produtos de carro e moto (24,2%), jogos (22,5%), cigarro e bebidas (15,0%) e artigos esportivos (8,3%). Nessa pergunta, os entrevistados podiam escolher mais de um item.

“Não que eu seja compulsiva por compras, mas meu marido não entende. Ele não acha ruim eu comprar coisas novas, mas, ao mesmo tempo, não entende para que preciso de um sapato novo”, explica a revendedora. “Não conto por vergonha, porque ele é mais controlado e eu gostaria de ser assim também”, conta Thavane.

De acordo com o levantamento feito pelo SPC, as estratégias mais utilizadas pelos entrevistados para esconder as compras são: pagar com dinheiro (26,9%), não deixar o cônjuge ver a fatura do cartão de crédito e/ou extrato da conta corrente (15,9%) e chegar em casa antes do cônjuge para guardar as compras sem que ele veja (14,4%).

Além de fazer compras apenas com dinheiro, Thavane tem o costume de sempre tirar as etiquetas antes de pôr as novas roupas no armário e gasta a sola dos sapatos, para pareceram usados.

Orçamento familiar – A economista-chefe do SPC tem uma sugestão de plano de finanças para casais e diz que, ao menos na sua família, funciona muito bem. Os dois devem juntar todas as despesas e todos os gastos e dividi-los em três partes: primeiro, devem pagar as contas obrigatórias, como água e luz; segundo, fazer uma poupança; e terceiro, juntar o que sobrou e dividir entre os dois, para gastar o que o quiserem.

“Meu marido pode não entender porque eu preciso de mais um sapato, mas não vai achar ruim, porque sabe que está no meu orçamento, assim como ele tem o dele”, comenta a especialista.

Com o objetivo de avaliar o grau de educação financeira dos brasileiros, a pesquisa foi realizada com 804 pessoas, maiores de 18 anos e residentes de todas as capitais brasileiras, de ambos os sexos e todas as classes sociais. A margem de erro é de no máximo 3,5 pontos percentuais para um intervalo de confiança de 95%.

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