Teste de autocontrole é usado para desempatar seleções


A advogada Lila Guarany, 32, na empresa em que trabalha, em SP

Programas que ajudam a desenvolver a inteligência emocional para evitar que funcionários percam a cabeça em nome das metas são um dos principais investimentos das empresas em tempos de crise.

Boa parte delas usa o conceito em testes tanto para identificar lideranças potenciais quanto para desempatar uma seleção.

O conceito de inteligência emocional está relacionado à capacidade do indivíduo de conhecer, analisar e gerir bem as próprias emoções.

A teoria foi desenvolvida pelo psicólogo e escritor norte-americano Daniel Goleman e popularizada a partir da publicação de seu primeiro livro sobre o tema, em 1995, que virou um best-seller.

“No Brasil, o uso dessas estratégias cresceu nos últimos cinco anos, quando as empresas passaram a ver que custa caro fazer contratações e promoções precipitadas. E a maioria das demissões ainda é causada por mau comportamento”, afirma Sócrates Melo, gerente regional da consultoria de RH Randstad.

A Pernod Ricard, multinacional do setor de bebidas, adotou o método há três anos. Para novos líderes, além de aplicar o questionário, oferece um programa de coaching.

A advogada Lila Guarany, 32, participou do treinamento de oito sessões quando foi promovida a um cargo de supervisora, no início deste ano. “Vi que era um pouco desconfiada, tinha baixa tolerância ao estresse e o hábito de impor minha forma de trabalhar à equipe”, afirma.

O programa ajudou a advogada a permitir que seus colaboradores tivessem mais autonomia. “A primeira coisa que fazemos ao receber um diagnóstico desses é rejeitá-lo, mas resolvi abraçar a oportunidade e foi valioso até nas relações fora do trabalho. Amigos e parentes dizem que passei a ouvir mais.”

Em um ambiente competitivo, os colaboradores tendem a deixar suas competências emocionais de lado porque acham que o resultado virá mais rápido, segundo o doutor em psicologia Sigmar Malvezzi, professor da USP. “Mas essa estratégia mina seus potenciais e influencia o resto da equipe”, afirma.

Se a inteligência emocional é desenvolvida “o profissional passa a conhecer seus gatilhos e a ideia é que tome decisões mais objetivas”, diz a administradora Chris Melchiades, da consultoria Fellipelli, que aplica testes desse tipo no Brasil.

Para aprimorar o comportamento esperado em um ambiente corporativo, ler livros ou ver palestras é um bom começo. Mas é preciso, também, tentar agir com empatia e conduzir da melhor maneira as emoções no dia a dia, segundo o psicólogo canadense Steven Stein, criador de um dos testes de inteligência emocional e autor de livros sobre o assunto.

A assistente de RH Ana Paula Alves, 26, que foi submetida a essa forma de avaliação durante a seleção da consultoria Crowe Horwath, diz que passou a se policiar no trato com colegas.

“Estou aprendendo a me colocar no lugar do outro. Vi melhora em meus relacionamentos, avanço que pode ajudar a me destacar em ambientes mais competitivos.”

A assistente de RH Ana Paula Alves, 26, na consultoria onde trabalha, em SP

Para o coach Roberto Deski, sai na frente quem assume a falta das competências de inteligência emocional sem atribuir culpa aos outros. “Em geral, a pessoa percebe que tem um problema quando não reage de forma adequada a determinadas situações e sofre as consequências disso. Mas essas habilidades podem ser treinadas, não vêm de fábrica”, diz Deski.

SIMPLIFICADO DEMAIS

Se a ideia é estourar menos, é preciso equilibrar melhor a balança entre vida e trabalho, segundo o pedagogo José Augusto Minarelli, especialista em transição de carreira para executivos.

“O profissional precisa ter formas saudáveis de descarregar o estresse após o trabalho. Quem está bem tende a se relacionar melhor com todos a sua volta”, afirma.

Fatores externos também influenciam no resultado do teste, contrapõe Tania Casado, doutora em administração e professora da USP. “Uma alta pontuação não significa que a pessoa sempre agirá de forma emocionalmente inteligente. Por isso, levantamentos do tipo podem ignorar questões importantes, simplificando demais um diagnóstico complexo.”

Descubra seu grau de inteligência emocional

Responda sim ou não às questões abaixo de forma espontânea e rápida:

1. Tenho facilidade para tomar decisões com rapidez
2. Demonstro os meus sentimentos autênticos na frente dos outros
3. Costumo me divertir em atividades sociais
4. Acredito na minha intuição
5. Mantenho contato com pessoas que me fazem sentir inferior, culpado e com vergonha
6. Percebo com facilidade o que os outros esperam de mim
7. Sinto que tenho equilíbrio entre pensar e agir
8. Tenho facilidade para lidar com pessoas diferentes de mim
9. Encaro bem situações que me causam mal-estar
10. Sinto que compreendo minhas emoções e sei quando usar cada uma delas

Resultado

De 1 a 3 respostas positivas: baixa inteligência emocional
Você se deixa levar muito facilmente pelas emoções dos outros e perde o controle com facilidade. Procure manter o equilíbrio e não se envolver tanto com sentimentos alheios.

De 4 a 6 respostas positivas: nível médio de inteligência emocional
Você ainda se perde em alguns momentos. Respire fundo e procure manter o autocontrole. Preocupe-se mais com você e faça atividades que lhe tragam equilíbrio.

De 7 a 10 respostas positivas: alta inteligência emocional
Você sabe se controlar em momentos difíceis, passa segurança e demonstra espírito de liderança.

Fonte: SBIE (Sociedade Brasileira de Inteligência Emocional)

Habilidades analisadas nos testes

AUTOPERCEPÇÃO
Envolve os conceitos de autoestima, autorrealização e consciência emocional. É a capacidade que uma pessoa tem de compreender seus pontos fortes e fraquezas e de buscar evolução contínua. O teste também procura mensurar se a pessoa compreende seus próprios sentimentos.

AUTOEXPRESSÃO
Pode ser definida como a habilidade de informar aos outros e a si mesmo sobre seus sentimentos, seja verbalmente ou por meio das atitudes e da linguagem corporal. Os testes também consideram a assertividade (capacidade de se comunicar e defender ideias) e a independência da pessoa ao tomar decisões.

COMPETÊNCIAS INTERPESSOAIS
É a capacidade de alguém em desenvolver e manter relações benéficas com colegas e amigos. Nesse quesito também são levadas em conta a empatia da pessoa (que envolve não apenas compreender os sentimentos dos outros, mas também articular opiniões que respeitem as emoções alheias) e sua preocupação em contribuir com o bem-estar da sociedade.

TOMADA DE DECISÕES
Habilidade de contornar adversidades mesmo quando há emoções envolvidas. Quem consegue se distanciar do problema e enxergá-lo com objetividade, sem criar desculpas, leva vantagem nesse aspecto. Os testes consideram ainda a capacidade de conter impulsos e evitar decisões imprudentes.

GERENCIAMENTO DE ESTRESSE
Envolve os conceitos de flexibilidade, tolerância ao estresse e otimismo. Quem tem essa competência consegue se adaptar mais facilmente a circunstâncias ou ideias imprevisíveis e não cede ao nervosismo nem perde a esperança.

Fonte: Fellipelli Consultoria

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