Introvertidos podem ser bons líderes se usarem observação, dizem especialistas


Diz o senso comum que introvertidos são tímidos, têm dificuldades de relacionamento e podem até ser inseguros. Pensando assim, profissionais reservados teriam dificuldades de liderar uma equipe, certo?

Errado. Segundo Denise Delboni, doutora em administração e professora da FGV (Fundação Getulio Vargas), embora a liderança pressuponha boa capacidade de comunicação, não é necessário ser extrovertido para exercê-la. “É a timidez que afeta a comunicação, não a introspecção. Não é correto associar as duas coisas”, diz.

Ser um bom líder não é algo inerente à personalidade, mas uma competência que pode ser desenvolvida, diz o psicólogo Sigmar Malvezzi, doutor pela Universidade de Lancaster, na Inglaterra, e professor da USP (Universidade de São Paulo).

“Trata-se de uma capacidade construída a partir da relação com os outros, de acordo com cada situação.”

Para Malvezzi, o problema é que muitos confundem liderança com assertividade. “As pessoas valorizam quem oferece soluções de cara, sem apresentar dúvidas, em vez de se dispor a refletir”, diz.

E, em geral, os introspectivos não são enérgicos logo de cara e preferem ouvir, pensar bem e analisar diversos lados de um problema antes de tomar uma decisão.

Para Delboni, da FGV, uma forma de desenvolver a liderança em um introvertido é usar a favor do profissional suas próprias características, como a capacidade de observação e percepção aguçadas.

“Liderança é legitimidade, por isso é preciso mostrar, mesmo que aos poucos, domínio da função para ganhar influência na equipe”, diz.

É essa a estratégia da engenheira Débora Gazzotti, 34, gerente na gestora de benefícios Ticket. “É um trabalho de formiguinha, porque não falo alto nem apelo às multidões, então compenso com muito esforço e me destaco aos poucos”, avalia.

Para garantir espaço, o que importa são os resultados, dizem as empresas. “Não preterimos nenhum líder em potencial por ser introvertido”, afirma o diretor de RH da Ticket Ricardo Amaro. “O que vale é a competência e o bom comportamento.”

Bom ouvinte

Para se destacar, um bom líder deve ouvir seus profissionais, afirma o psicólogo norte-americano Adam Grant, doutor pela Universidade de Michigan e professor de Wharton, escola de negócios da Universidade da Pensilvânia, nos EUA.

“Também é preciso saber se adaptar, dosando comunicação eficaz e capacidade de estimular a equipe com atenção e boas perguntas”, diz.

O engenheiro Alexandre Novoselecki, 48, gerente-geral da indústria de polímeros alemã Rehau, afirma procurar sempre se manter atento às opiniões de sua equipe.

“Nas reuniões, deixo que os especialistas falem”, diz. “Eu mesmo falo pouco.”

Um comportamento mais reservado também pode ajudar a exercer a chamada “liderança situacional”, na qual o gestor usa sua capacidade de estudar o ambiente e ajusta a condução da equipe.

O administrador Thomas Gierse, 47, é diretor na farmacêutica Sanofi e conta que, ao assumir uma posição de liderança, em 2002, aproveitou sua habilidade de observação e a usou em seu favor.

“Passei a reparar quem eram os influenciadores, chamava-os para conversar e criava uma relação mais pessoal com membros da equipe.”

Uma pessoa muito extrovertida pode não conseguir ter essa capacidade sutil de percepção, típica dos observadores, segundo Delboni.

E, para Malvezzi, da USP, não adianta tentar “superar” a introversão. “Timidez pode ser vencida, mas ser reservado é algo estrutural, de guardar os impulsos dentro de si.”

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