Conheça o inusitado processo de seleção de designers da Lego

O Globo



Em outubro, 21 pessoas viajaram de todas as partes do mundo para a pequena cidade de Billund, na Dinamarca, onde passaram dois dias montando brinquedos da Lego. Não era um concurso ou simples brincadeira. Elas estavam concorrendo a um emprego de designer da empresa dinamarquesa, a segunda maior fabricante de brinquedos do mundo, depois da americana Mattel. Foi o caso de James Colmer, de 46 anos, que deixou a família na Austrália e passou dois dias na sede da empresa.

“Meu filho sugeriu que queria ser um designer da Lego quando crescer e eu pensei: ‘Ei, isso seria uma grande ideia’”, afirmou Colmer.

Como mostra reportagem do The Wall Street Journal, a Lego tem um método incomum de preencher uma vaga: em vez de realizar entrevistas formais, a empresa convida os candidatos mais promissores a visitarem sua sede para desenhar ou construir conjuntos Lego na presença de um grupo de designers.

A Lego, que andava um pouco esquecida, voltou a fazer sucesso nos últimos anos com uma série de produtos baseados em filmes campeões de bilheteria, como “Harry Potter”, “O Hobbit” e “Os vingadores”. É vital para a empresa manter um fluxo constante de novos conjuntos — kits temáticos para montar, passo a passo, modelos específicos e às vezes elaborados, como o conjunto de 996 peças Castelo do Rei, lançado este ano. Por conta disso, precisa manter continuamente sua equipe de designers. Os seus 200 profissionais incluem pessoas que criam personagens e outras que literalmente só sentam e montam modelos Lego, explica Will Thorogood, diretor de design da empresa.

“Ao pedir aos candidatos que desenhem, podemos vê-los num estado muito mais relaxado do que numa entrevista formal”, diz ele.

A Lego vem conduzindo essas oficinas de recrutamento, que duram dois dias, há sete anos, mas elas vinham sendo mantidas em segredo. Os candidatos a designers se inscrevem on-line para participar da oficina, que, segundo a Lego, acontece pelo menos uma vez por ano, dependendo da necessidade. Os candidatos passam por testes e conversas pelo Skype. Os participantes selecionados recebem uma bolsa contendo peças Lego e são orientados a aparecer em Billund com uma nova criação, que podem ou não ser aproveitadas pela Lego. Entre as ideias apresentadas no início de uma oficina no mês passado, estavam modelos de escorpiões com controle remoto, casas mágicas suspensas em árvores e um tocador de música de alta tecnologia.

“É uma forma de quebrar o gelo e apresentar os candidatos uns aos outros e para nós, e ver o que eles criaram com a peças”, explicou Caroline Hansen, diretora do Programa de Recrutamento.

Muitos dos candidatos são designers experientes vindos de países como Brasil, Nova Zelândia, Taiwan, Indonésia e Alemanha. Colmer, um inglês que mora na Austrália, atua na indústria de entretenimento desde 1988, tendo trabalhado no cenário de filmes como “Super-Homem – O Retorno”.

Diplomas e experiência como designer não são necessários. Kurt Kristiansen, de 40 anos, designer da equipe da linha Guerra nas Estrelas, que vem criando alguns dos brinquedos mais populares da companhia, era mecânico de tratores antes de ir para a Lego, nos anos 90.

York Bleyer, veterano do exército que tem 49 anos e trabalhou vários anos como designer da Mattel, ficou surpreso ao ver que estava concorrendo com candidatos que tinham acabado de sair da universidade.

Depois que os designers mostram as criações que trouxeram de casa, a oficina começa para valer. Os recrutas receberam uma série de desafios durante dois dias, como esboçar projetos, desenhar minifiguras e criar um conjunto para crianças de oito a dez anos. Todas as tarefas são cronometradas.

Em um exercício — criar um conjunto que combinava temas medievais e espaciais —, são distribuídos sacos plásticos com peças Lego e minifiguras, e os participantes trabalham em mesas ou no carpete. Alguns começam desenhando com canetas coloridas, enquanto outros passam imediatamente a encaixar as peças plásticas, testando as ideias à medida que vão fazendo montagens. Eles tiveram duas horas e meia para apresentar um conceito de brinquedo Lego. Ninguém falava e, com exceção do clicar das peças plásticas e do som ocasional de um avião decolando num aeroporto próximo, o grupo trabalhou em silêncio. Os designers da Lego observavam os candidatos e tomavam notas.

Os profissionais foram julgados não somente pelo conceito, mas também por elementos como o esquema de cores e de construção dos designs. Outro elemento, mais subjetivo, é a questão da diversão.

“Você precisa pensar numa maneira de adicionar um pouco de humor ao produto, ao personagem ou à história, e isso é muito importante para nós”, diz Thorogood.

O modo com que os candidatos interagem uns com os outros também é avaliado.

Durante os intervalos, os candidatos recebem informações sobre a mudança para Billund, uma pequena cidade da península de Jutland, que tem 6.500 habitantes e limitada vida noturna.

Embora a Lego não pretenda produzir os conjuntos criados na oficina – um designer precisa de treinamento para criar algo que tenha um preço adequado, seja direcionado à faixa etária correta e condizente com a oferta de produtos da Lego, entre outros aspectos -, há pouco mais de uma semana, a empresa afirmou que decidiu contratar oito dos 21 candidatos. Ela não revelou quem receberia a oferta. Mas os selecionados, afirma a Lego, devem estar prontos para começar o mais cedo possível, preferivelmente no dia seguinte após serem contatados.

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