Cartão de visita: modelo tradicional resiste e ganha roupagens originais

O Globo



Para a maioria, ele é útil. Mas, com o avanço da tecnologia, a real eficácia do cartão de visita tradicional começa a ser questionada, o que provoca, também, uma renovação nos formatos, que passam a ser mais criativos e originais. Afinal, com tantos aplicativos modernos que permitem a transferência rápida de contatos e até o armazenamento dos cartões de forma digital, será mesmo necessário entregar suas coordenadas em um pedaço de papel?

A Vooza, startup americana que produz vídeos cômicos sobre o ambiente de trabalho e empreendedorismo, acha que o cartão já é passado. Na mais recente produção do grupo, dois profissionais satirizam a troca de contatos, indicando que, após o encontro, cada um jogará fora o cartão do outro — não à toa, o título do vídeo é “Troca honesta de cartões de visita”.

É o que pode ocorrer, por exemplo, com quem usa os aplicativos de digitalização de cartões, como Cardcloud, CamCard ou Yolu Card Reader — há muitos outros disponíveis tanto para Android como para Apple —, ou o Bump, que possibilita compartilhamento de contatos com a simples batida de celulares. E tem quem prefira entregar um pen-drive como cartão ou inserir no papel um QR Code que, quando escaneado, dá acesso a mais informações.

Mas Fabíola Lago, especialista do portal vagas.com.br, discorda da visão bem humorada da startup Vooza. Para ela, o cartão ainda é importante.

— As conversas podem brotar nos momentos mais diversos: dentro de um elevador, por exemplo. Nesse caso, estar munido com seus cartões é um facilitador — acredita Fabíola, que tem uma pasta na qual guarda os cartões em ordem alfabética.

Já Hildebrando Trannin, CEO da SEO Master, empresa especializada em técnicas de otimização de sites, armazena os cartões de forma mais moderna:

— O cartão de visitas ainda pode ser bem útil, mas as pessoas precisam adaptar-se à nova realidade tecnológica. Costumo escanear o cartão com o aplicativo CamCard, quando quero adicioná-lo diretamente à minha lista de contatos — diz Trannin, cujo cartão é colorido, mas no formato tradicional.

Um pouco como a YDreams, empresa de tecnologia e design com escritórios no Brasil, Portugal e Espanha, que providencia para cada funcionário um cartão arredondado que inclui não só os contatos, mas a foto do profissional. Isso, para Jaqueline Souza, account & new business manager, facilita a identificação — especialmente porque o cartão é padronizado internacionalmente:

— Certa vez, numa reunião com um parceiro que conhecia um diretor de outra unidade, bastou ele perceber, pelo cartão, que era a mesma empresa, para o gelo se quebrar.

Opinião compartilhada por Leandro Campos, sócio-fundador da Peixe [FORA DA LATA], agência de comunicação e aceleradora que até ganhou um prêmio, em 2011, pelo cartão de visita inovador: em forma de lata de sardinha, inclui até uma argola, que deve ser puxada para revelar os contatos.

— Os cartões ainda são o meio mais prático de networking — avalia Campos, para quem, por ser do ramo criativo, famoso pela informalidade, precisa ficar especialmente atento à questão. — Frases como “esqueci o meu cartão, mas anota meu telefone…” não são tão bem recebidas por empresas que buscam parceiros de credibilidade..

Agora, na hora de escolher o tipo de cartão da empresa, dizem especialistas, é preciso haver coerência com o setor de atuação.

— É uma questão de adequação. O cartão deve expressar a cultura da empresa — destaca Fabíola Lago.

Como no caso da artista plástica Kakau Höfke, que decora os seus cartões com as estampas que cria:

— O cartão sozinho não fecha o negócio, mas desperta interesse, gera curiosidade.

Para Paulo Figueiredo, dono da Fácil Print, especializada em produtos de papelaria personalizados, o cartão de visita não vai ser extinto tão cedo: é, inclusive, um dos itens mais vendidos no site.

— Mesmo na época digital, as pessoas preferem o papel. E não apenas no Brasil, mas em outros países também.

Claudia Klein, sócia da Argumentare, é adepta dos cartões e costuma anotar no verso alguma referência do local ou evento onde conheceu a pessoa. Mas ela conta que, em viagem recente aos Estados Unidos, embora tenha recebido vários cartões, também trocou muitos contatos por meio do Bump, aplicativo que permite o compartilhamento pela aproximação dos celulares.

— Talvez os cartões percam utilidade quando um aperto de mão for o suficiente para transferir dados entre pessoas. Enquanto isso não ocorre, não acredito que a praticidade da troca de cartões seja substituída — conclui Leandro Campos, da Peixe comunicação.

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